Leitura Inspecional (Pré-leitura):
Trata-se de um livro de psicoterapia, que se propõe a indicar os caminhos para encontrar a razão de viver. Se insere no contexto atual da sociedade "em paz" (Leia-se: sem guerras), na qual o sofrimento de uma vida sem sentido impõe uma nova abordagem da psicoterapia e uma nova visão da realidade e do mundo. O autor propõe considerações a cerca da imagem do homem na psicoterapia, fundadas na vontade do sentido,no sentido do sofrimento e na liberdade da vontade. A estrutura do livro é composta de introdução longa, 10 capítulos curtos, com o título geral de " a reumanização da psicoterapia", e anexos. Os capítulos seguem um raciocínio único, do geral para o específico, abordando os assuntos com os discussões teóricas e relatos de casos. 

Leitura Analítica 1 - Conhecendo a estrutura do livro: 
O livro tem uma proposta de guia prático, mas expõe os "caminhos para encontrar a razão de viver" através da concepção científica de logoterapia. No geral, é um livro de psicoterapia, com abordagem de conceitos de logoterapia, defendendo a reumanização daquela ciência. A ideia fundamental do autor é: Pertence a natureza do homem perguntar-se, questionar e busca o sentido da vida; de modo que a existência para o ser humano seria o cumprimento do sentido. 
Para expor essa teoria aparentemente complexa, o autor faz uso da introdução e 10 capítulos. A frase que resume a introdução é "Cada época tem suas neuroses e cada tempo precisa de sua psicoterapia". Viktor apresenta o conceito de vazio existencial e discorre sobre suas causas e consequências. Ao mesmo tempo, define as bases fáticas de seus argumentos pró-logoterapia: autotranscendência da existência humana, ódio, criminalidade, sexualidade e educação. Para concluir, reforça a ideia de uma psicoterapia reumanizada como solução, e apresenta o fenômeno da consciência como forma de encontrar o sentido. 

(A introdução parece ser a parte mais difícil do livro, pois ela apresenta muitas informações encadeadas e diversos conceitos aplicáveis a psicoterapia, mas não desista) 

Os capítulos reúnem conferências proferidas na Universidade de Salzburg, em 1957. (Essa informação é bem importante, guarde ela). 
  1. "Freud, Adler e Jung" - são trabalhados os méritos e deficiências de cada sistemática terapêutica desses grandes psicanalistas. A crítica geral se faz a cerca do tecnicismo do psicologismo dinâmico. 
  2. "A logoterapia" - há a definição e evidenciação da relação da Logoterapia com a psicanálise. São levantados alguns casos de aplicação e introduzidas duas ferramentas da Logoterapia: a intenção paradoxal e a derreflexão. 
  3. Explicação da "intenção paradoxal" com vários relatos de casos de utilização com sucesso
  4. Também usando estudos de caso, a explicação de "derreflexão". 
  5. finalmente encontramos a explicação da vontade de sentido, diferenciando-a de vontade de prazer e explicando a dinâmica delas. 
  6. A abordagem da "frustração existencial" é dissociada da visão patológica.
  7. Intitulado "sentido do sofrimento", é explicada porque ele é o mais elevado dos sentidos, e como a capacidade de suportar o próprio sofrimento equivale a capacidade de realizar valores de atitude.  
  8. "Pastoral médica" - surge o personagem do médico que precisa lidar com doenças incuráveis, levantando a tese de um dever do médico em confortar a alma, conecta essa visão com os perigos do patologismo e do noologismo, e o sentido da doença. 
  9. "Logoterapia e religião" - Para a logoterapia a religiosidade poder um objeto, mas são diferentes, pois a fé na dimensão supra-humana é fundamentada no amor. E a logoterapia acredita que a existência humana aponta sempre para além de si mesma, para um sentido. 
  10. "A critica do psicologismo dinâmico" - fundamenta que a ausência de uma análise existencial na terapias  conduz o psicologismo dinâmico a uma necessidade incessante de desmascarar e desvendar o paciente, tornando-se um fim em si mesmo. Explicação sobre a liberdade da vontade. Exposição do credo psiquiátrico do autor: "a crença absoluta na pessoa espiritual, e também na dos doentes psicóticos". 
Anexo: "O que diz o psiquiatra a respeito da literatura moderna?" O autor critica a idolatria da psiquiatria e a moda de avaliar a produção literária a partir de uma perspectiva psiquiátrica do autor - um reducionismo aprazível aos homens. Em contraposição à visão da literatura como apenas auto-expressão do autor, defende a literatura como meio de autotranscendência, possibilitando ajudar pessoas a dar sentido para suas vidas. 

Problemática do livro: Existe na sociedade um vazio existencial caracterizado como neurose de massa, capaz de causar fenômenos como a agressividade, criminalidade, dependência de drogas, suicídios e diversos outros problemas sociais e individuais. Essa ausência de sentido seria resultado do desenvolvimento da sociedade em tempos de paz; provocando uma reflexão mais precoce de questões existenciais. Nesse mesmo contexto, a psiquiatria "tradicional" baseada em Freud, Adler e Jung, tornou-se ineficiente na medida em que não abarca completamente a essência humana da busca por sentido. 
Proposta de solução: A logoterapia seria uma terapia mais eficaz, associada com a psicoterapia, pois baseia-se em uma visão reumanizada do homem, tornando-se capaz de utilizar métodos que orientam o paciente na busca do sentido da vida, desde da acepção comportamental cotidiana até em uma visão existencial espiritual.   


Leitura Analítica  2 - Regras para interpretar o conteúdo:
A. Interpretação do sentido das palavras-chaves, para entrar em acordo com o autor - São todas as grifadas em laranja durante os textos anteriores. 

B. Apreenda as proposições principais, identifique os argumentos construídos no texto (dedutivos e indutivos), as suposições e as proposições auto-evidentes.
  • O autor utiliza diversos dados para comprovar a generalização do sofrimento decorrente do vazio existencial. Ao mesmo tempo o autor defende que cada época tem suas neuroses e cada tempo precisa de sua psicoterapia. Nesse ponto, Viktor apresenta pesquisas que sugerem que os métodos tradicionais, fundados e constituídos para serem aplicados em outra sociedade não se adequam à sociedade atual. 
  • O autor deduz  que a causa para o vazio existencial é a própria essência de ser racional e a ruptura com a tradição. Defende a autotranscendência da existência humana, baseando em casos e pesquisas, indutivamente. Baseado na proposição autoevidente de que o ódio e amor são fenômenos humanos porque são intencionais, defende que a motivação é fundamento e não causa para esses fenômenos. 
  • Viktor defende que psicoterapia reumanizada é a única possibilidade de compreender os sintomas da época, e reagir às necessidades de novo tempo. E afirma que o sentido deve e pode ser encontrado através da consciência. O fundamento principal é o erro da psicanalise ao limitar o campo de visão na genealogia moral e na homeostase natural e cultural, gerando como efeito terapêutico a nova orientação existencial do paciente.  Nesse ponto ele expõe as críticas ao modelos tradicionais, bem como sua contribuição para a logoterapia. Em Freud, a grande contribuição foi o sentido e significado, e o desmérito é subjugar o método a realidade material da época. Jung é criticado pelo reducionismo à arquétipos, e Adler pela ideia de sentimento de inferioridade com foco na instância social.
  • Supõe que a era do tecnicismo, da eficiência de uma mecânica da alma acabou. A Logoterapia ascende à dimensão humana, tomando-se capaz de acolher em seu instrumento os fenômenos especificamente humanos que nela se encontram, gerando como efeito terapêutico a mudança de atitude perante os sintomas. Para VIktor, "É possível comprovar a existência de uma disposição psicopática",  e partindo dessa premissa, expõe a eficiência de intenção paradoxal e da derreflexão. 
C. Determine os problemas que foram resolvidos e os que não foram; quanto a estes últimos, verifique se o autor está ciente de que não conseguiu resolvê-los. 

- Problema: Vazio existencial generalizado, solução: Terapia reumanizada
- Problema: Métodos de trabalhar o vazio existencial, solução: psicoterapia + logoterapia
- Problema: Como utilizar os métodos, solução: derreflexão e intenção paradoxal, mas sem menção de como associar os dois métodos.  
- Problema: Médico que não se preocupam com a alma, solução: instruir os médicos sobre o sentido do sofrimento.

Leitura Analítica  3 - Crítica: 
Primeiramente, é preciso ponderar que o livro é baseado em conferências, caracterizada pela exposição breve e elucidativa, para universitários. Dessa forma, tanto a ausência de um aprofundamento nas teorias quando a presença de termos técnicos da psiquiatria são justificados, apesar da aparente proposta de auto-ajuda. Em relação a adequação do conteúdo, é preciso registrar que o livro reflete pensamentos dos anos 50 e consequentemente são voltados para àquela , no entanto o conteúdo se mostra pertinente e adequado para a atualidade, talvez até mais legitimado, considerando o agravamento das neuroses. 

O livro se dispõe a indicar um caminho para encontrar a razão de viver: a logoterapia, e os exemplos utilizados por Viktor demonstram a abordagem diferente, a eficiência e inovação do método. Apesar das criticas ao psicologismo dinâmico, o autor afirmou a sua necessidade como precedente da logoterapia, mas não desenvolveu a ideia, deixando uma lacuna sobre como aconteceria essa integração. No geral, concordo com o autor sobre a necessidade de reumanização da psicoterapia, e da adequação às realidades vividas, e não às teorias, sintomas e arquétipos. No tópico sobre religião, o autor afirma claramente sua crença na "pessoa espiritual" e apesar de não incluir religião nos instrumentos da logoterapia, encerra o livro com uma citação de Kierkegaard sobre a força do amor de Deus, o que nos leva a crer que o fenômeno da religiosidade talvez seja o verdadeiro caminho para encontrar a razão de viver.