Leitura Inspecional (Pré-Leitura):
O livro parece ser um grande manual sobre como ser um verdadeiro intelectual, conforme e visão e as crenças do autor. A diretriz de exposição é composta pelos eixos: espírito, condições e métodos; baseada na visão da vida intelectual integrada a vida prática e transcendente.
O livro data de 1920, foi escrito por um filosofo e teólogo neo-tomista e está catalogado como: cultura, vida cristã e vida intelectual. É composto por 9 capítulos; o primeiro "a vocação intelectual", seguido de "as virtudes de intelectual cristão" e do capitulo III "a organização da vida" são capítulos de iniciação, expondo os requisitos da vida intelectual. Os demais capítulos desenvolvem diversos aspectos e métodos do Trabalho Intelectual, quais sejam: tempo, campo, espírito, preparação, criação e relação trabalhador e homem. 
O escritor segue uma linha de raciocínio continua, com tom orientativo, e subcapítulos que ajudam a entender qual a ideia principal daquele trecho. 


Leitura Analítica 1 - Conhecendo a estrutura do livro: 
Trata-se de um livro prático, com a proposta de expor o caminho da vida intelectual cristã em busca da verdadeO autor cumpre o objetivo em duas partes, a primeira parte (Capítulo I, II e III) delineia os requisitos da vida intelectual e a segunda parte (Capítulo IV ao IX) os métodos de trabalho.

Capítulo I - A vocação Intelectual - Aponta o intelectual como um consagrado que responde a um chamado de Deus através de uma resolução séria de cumprir suas obrigações ao se dedicar aos trabalhos da inteligência. O autor convida os jovens a reservarem 2 horas por dia à vida intelectual e exalta a necessidade de trabalhar no espírito de utilização, uma vez que toda verdade é prática. Outro ponto abordado é o de que o intelectual pertence ao seu tempo, descartando determinada tendência de amor ao passado que não dá a devida importância às dores do presente, ignorando a presença universal de Deus. Para ele, todos os tempos são tempos cristãos e há um que para nós e na prática os supera todos: o nosso. 

Capítulo II - As virtudes de um intelectual cristão 
Trabalha com a ideia de que a virtude contém a intelectualidade em potencial, pois, conduzindo-nos a nosso fim, que é intelectual, a virtude equivale ao supremo saber. 
- Argumento: Ele defende que o conhecimento não se dá apenas intelectualmente, mas através da unidade do ser (espiritual + físico), em convergência com a unidade universal da verdade, a qual também se identifica com o bem.
- O autor pontua que a virtude própria ao intelectual é a estudiosidade, entendida como uma temperança moderadora, capaz de evitar a negligência e a vã curiosidade. Pra ele, na realidade tudo se eleva ao divino, tudo dele depende, porque tudo dele provem e por esse motivo o intelectual nunca deve abandonar a oração.fundamento para essa afirmação, é de que cada verdade é um fragmento que se expõe por todos os lados suas amarras; a
- Argumento: Verdade em si mesma é una, e a Verdade é Deus. "Nem o conhecimento, nem qualquer manifestação de vida deve ser apartada e suas raízes na alma e na realidade, onde o Deus do coração e o Deus dos céus se revelam e se unem." Tratando-se, portanto, o estudo do intelectual de um estudo da eternidade. 

Capítulo III - A Organização da Vida - partindo da ideia de disciplina do corpo trabalhada no capitulo anterior, o autor abrange a orientação para uma organização da vida como um todo (ambientação, obrigações, convívio e cenário), a fim de preparar o jovem para os desafios da vida intelectual. Os tópicos são: simplificar, conservar a solidão, cooperar com seus semelhantes, cultivar os relacionamentos necessários, manter a dose necessária de ação e preservar em tudo o silêncio interior. 

Na segunda parte, temos os capítulos sobre o Tempo, o Campo, o Espírito e a Preparação do trabalho, bem como dois capítulos finais sobre o "Trabalho Criador" e o "Trabalhador e o Homem.":

Capítulo IV - O tempo do trabalho - é abordada a necessidade de um trabalho permanente. 
- Argumento: Uma vez que o estudo é uma oração à verdade, e a oração nunca deve cessar. Sertillanges defende que a todo momento devemos desejar as coisas eternas, estarmos atentos aos tesouros do dia a dia, e manter em um estado de espírito voltado para a inspiração.
- E o instrumento para alcançar essa constância é a disciplina; o hábito de observar, escutar e refletir.  Para o autor, a manhã é sagrada e a noite deve ser reservada ao descanso. Por fim, o autor aborda os Instantes de Plenitude, segundo ele "a maior parte da obra não tem outro fim a não ser o de discutir o emprego desse tempo". Esses são os instante de contemplação, estudo, inspiração, o tempo do trabalho propriamente dito. E nesse raciocínio finaliza com um conselho: "Fujam do trabalho feito pela metade.

Capitulo V - O campo do Trabalho - Sertillanges enaltece a ciência comparada em detrimento da especialidade. 
- Argumento: Em sua visão, o modo de estudo comparado permite garantir para si um espirito aberto, preciso, realmente forte ao passo que a ciência cultivada em separado não se basta a si mesma, e apresenta perigos ao homens como a deturpação do raciocínio, a obsessão pela complexidade, o orgulho doutoral. 
- Para ele, é preciso passar de um espírito ao outro a fim de corrigi-los um pelo outro; é preciso alternar as culturas para não arruinar o solo. Como instrumento para orientação no Trabalho Intelectual, o autor defende o Tomismo como quadro ideal do saber. 

Capitulo VI - O espírito do trabalho - Nesse capitulo o autor destaca o fervor da pesquisa. Segundo dele, o Espírito sopra no interior do intelectual e se revela no meio externo através de profetas, homens, coisas, livros... De modo que a alma deve estar a atenta para percebê-lo. Destaca que o grande inimigo do saber é a indolência, a preguiça, que aceita dar o máximo de si, mas cai novamente no automatismo indiferente.  
- Argumento: O intelectual é movido por um instinto de conquistador, não se limita, e encara uma vitória como treino para outra; por isso deve sempre se esforçar. 
Outra importante disposição destacada é a concentração. Através dela, o intelectual é capaz de interligar as ideias, as circunstâncias, as relações entre os elementos que dominam o caso todo, ou o ser todo. Para Sertillanges, fator ainda mais importante que a submissão à disciplina, é a submissão ao verdadeiro
- Argumento: O trabalho profundo consiste em deixar-se penetrar pela verdade, submergi-se nela mansamente, nela afogar-se, não mais pensar que se pensa, nem que se é, nem nada no mundo é, afora a própria verdade - esse é o êxtase intelectual.

                       "O estudo poderia se definir pelas seguinte palavras: é Deus que toma em nós consciência de sua obra." Sertillanges

Por fim, o autor encerra ressaltando que "para enobrecer o espírito do trabalho, é preciso acrescentar ao fervor, à concentração, à submissão, um esforço de ampliação que confere a cada estudo ou a cada produção um alcance de certa forma total". Perdurando, no entanto, o senso de mistério cujo alto caráter afirma que as nossas luzes não passam de gradações de sombra pelas quais subimos ruma à claridade inacessível. 


Capitulo VII - A preparação do Trabalho 
A - Leitura: Ler pouco é a primeira regra, proscrevendo a compulsão pela leitura. A "paixão" da leitura, da qual muitos se orgulham como de uma valiosa qualidade intelectual, é na verdade uma tara, gerando perturbação, confusão e esgotando as forças. Deve-se ler inteligentemente e não apaixonadamente. O autor defende esse ponto de vista, e adverte para que os jovens estabeleçam pessoalmente sua rota, tirem proveito delas de acordo com cada tipo de leitura: fundamentais; ocasionais; de treinamento ou edificantes; ou relaxantes; e busquem sempre conciliar seus autores em vez de opô-los.  
- Argumento: Defende que a fonte do saber não está nos livros, ela está na realidade e no pensamento. Os livros são placas de sinalização; e ninguém pode fazer a viagem da verdade por nós. Para ele, o contato com os gênio nos proporciona o benefício imediato da elevação. Por si só, sua superioridade nos gratifica antes mesmo que consigam nos ensinar alguma coisa; eles servem de partida para possamos iniciar nossa jornada. Cada leitura deve possibilitar o engendrar do pensamento, à semelhança do inspirador, mas de vindo do próprio leitor. 
B- A organização da memória: "Não se vive da própria memória, usa-se sua memória para viver." Gravem nos senhores o que pode ajudá-los a conceber ou a executar, assimilar-se a sua alma, preencher seus objetivos, revigorar sua inspiração e respaldar sua obra." No processo de memorização, deve-se prestar atenção nas ligações e nas razões das coisas, relacionando tudo ao essencial, na memória tanto quanto no pensamento, de formar a conservar as ideias mestras, aptas a clarear o que se oferece ao intelectual. Para isso, o autor recomenda 4 regras de Santo Tomás: 1º ordenar o que se quer reter, 2º nisso investir profundamente o espírito, 3º sobre isso meditar frequentemente, 4º quando se quiser rememorá-lo, tomar a cadeia de dependências por uma extremidade, a qual acarretará todo o restante.  
- Argumento: Ele defende que, o que importa à memória não é tanto a quantidade de suas aquisições e sim primeiramente sua qualidade, seguida de sua ordenação e por fim a habilidade para sua manipulação. Sertillanges recomenda também ao cristão aprender de cor salmos e sentenças da Sagrada Escritura, no intuito de santificar a memória mediante essas divinas palavras. 
C- Anotações - Como anotar, como classificar suas anotações e como utilizá-las. 

Capítulo VIII - O trabalho criador - Nesse capitulo o autor aborda a realização, e adverte: "É preciso escrever ao longo de toda a vida intelectual. Escreve-se primeiramente para si, para enxergar claramente a situação, determinar melhor seus pensamentos, manter e reavivar a atenção que logo esmorece" sem a ação; mas também modelar o estilo ao adquirir a habilidade de escrever. As habilidade de estilo podem se traduzir em: verdade, individualidade e simplicidade ou "escrever com verdade". 
- Argumento: O trabalho criador pede o desprendimento de si mesmo e do mundo. A verdade é essencialmente impessoal, de modo que submeter o verdadeiro a sua pessoa é um ato orgulhoso e vira estupidez. O trabalho criador requer ainda "constância que se mantém pronta para produzir, paciência que suporta as dificuldade e perseverança que evita o desgaste do querer." Estando preenchido o requisito das três virtudes, afasta-se o receio de um resultado medíocre e imperfeito, mas o autor ressalta que se deve fazer tudo bem feito e até o fim, bem como não se deve tentar nada acima de seus limites. 

                  "O sucesso em qualquer setor está sempre subordinado às mesmas condições: refletir no inicio, começar pelo começo, proceder metodicamente, avançar pausadamente, investir todas as suas forças. Mas a reflexão inicial tem por principal objetivo determinar aquilo para o que fomos feitos. O 'conhecer-te a ti mesmo' de Sócrates não é apenas a chave da moral, é de toda a vocação, já que ser chamado para algo é ver-se designar só seu, na imensidão da trajetória humana." Sertillanges

Capítulo IX - O trabalho e o Homem - "O que mais importa  à vida não são os conhecimentos, é o caráter".O autor expressa nesse capitulo final a importância de manter em contato com a humanidade e com o mundo, incluindo o convívio com as pessoas e com a natureza, os esportes, poesias, artes... Um vez que tudo pode ser nocivo quando destacado de sua rede de relações e é unicamente em nosso ambiente geral que nossa alma consegue desabrochar. Discorre ainda sobre a necessidade de saber estipular a medida certa de cada coisa, apreciar o valor relativo de cada uma e saber relaxar. Nesse processo, é preciso também aceitar as provações: o descontentamento consigo mesmo, a demora na inspiração, a indiferença no entorno, a inveja, a deserção dos amigos, as críticas. O autor aponta os melhores meios de resistir e crescer através das provações. O último conselho de Sertillanges é: Decididos a pagar, anotem no registro de seu coração, hoje mesmo, se já não o fizeram, sua firme resolução. Aconselha a escrevê-la e deixá-la visível, e quando se puderem ao trabalho e depois de terem orado, reassumirão essa resolução a cada dia e a proclamarão acrescentando ao final com plena certeza: "Se fizeres isso, produzirás frutos úteis e alcançares o que desejas".

                   "Meu intelectual é o homem detentor de um saber amplo e variado que vem prolongar uma especialidade dominada a fundo; é amigo das artes e das belezas naturais; seu espírito revela ser o mesmo nos afazeres corriqueiro e na meditação; encontramo-lo idêntico perante Deus, perante seus pares e perante sua criada, trazendo em si um mundo de ideias e de sentimentos que não se inscrevem apenas em livros e discursos, que se desabafam nas conversas amigáveis e que guiam a vida." 


Problemática do livro: O livro busca resolver a problemática sobre o que é a Vida Intelectual e como vivê-lá. Mesmo em 1920, ano em que o livro foi escrito, o autor dá a entender que já existia uma dificuldade na identificação e condução de um trabalho intelectual cristão direcionado para a Verdade. Os problemas apontados pelo autor podem ser divididos em Problemas de Preparação e Problemas de Execução. Os de preparação são: a compreensão da vocação, do chamado de Deus para o trabalho; a manutenção das virtudes necessárias para seguir o caminho; e a organização da vida. Os problemas de Execução são as formas de conduzir o trabalho intelectual, uma vez que mal executado pode levar a pessoa aos vícios e não a iluminação. 

Proposta de solução: A principal ideia do livro é de que o Intelectual é àquele consagrado que busca a verdade através do contato com a verdade como um todo. E esse contato não se dá apenas através do livro, mas através de convivência com as pessoas e o mundo, na reflexão e nos pensamentos do homem, na apreciação das artes, na contemplação da natureza, na  produção intelectual e principalmente na compreensão da essência de uma verdade una e indivisível que corresponde a Deus. O grande feito do intelectual será consegui organizar essas ligações em seu ser. Para conseguir tal feito é preciso que ele mesmo se organize, se conheça e se discipline, e o livro foi escrito como um guia de métodos para auxiliar nessa jornada.  



Leitura Analítica  2 - Regras para interpretar o conteúdo:
A. Interpretação do sentido das palavras-chaves, para entrar em acordo com o autor - São todas as grifadas em laranja durante os textos anteriores. 

B. Apreenda as proposições principais, identifique os argumentos construídos no texto (dedutivos e indutivos), as suposições e as proposições auto-evidentes. - Destacados na descrição dos capítulos. 

Comentário Geral: 
A maioria dos argumentos do livro são dedutivos sob o ponto de vista geral. A obra tem um tom orientativo, de aconselhamento, com base nos fundamentos e ensinamentos da religião católica cristã. Alguns argumentos certamente encontram fundamento na Teologia, mas essa abordagem não é trabalhada no livro. O autor se limita a conduzir o leitor em uma forma de pensar e refletir conceitos, atitudes, condutas e passagens bíblicas, mas não se ocupa de provar que está correto sob o ponto de vista científico. A vida intelectual trabalhada no livro é essencialmente devocional, e o autor deixa claro isso em sua fundamentação. A ideia principal defendida pelo livro, pode ser sintetizada dessa forma: O intelectual deve buscar a verdade, a verdade como um todo, uno, indivisível, onipresente que se identifica com o bem e se apresenta em nós e em tudo que nos cerca. O grande trabalho intelectual é apreender a interligação dos diversos fragmentos da verdade e uni-los, comungá-los através de si em direção a verdade suprema que é Deus. 

A problemática foi resolvida?
Pode-se dizer que sim. De fato, foi elaborado um guia de como iniciar e conduzir uma vida intelectual cristã, delineando os vários aspectos e problemas que esse caminho poderia conduzir o leitor e propondo soluções para cada uma delas. (Se eu fosse enunciar cada um das soluções ficaria muito extenso, mas as principais estão na descrição dos capítulos).


Leitura Analítica  3 - Crítica: 
Primeiramente, é preciso considerar que a obra foi escrita em 1920. E uma ideia comum na época, mas ainda assim criticável, é de que apenas os homens deveriam ser intelectuais. Sertillanges chega a dizer que a mulher nem precisaria ser letrada, o que considero algo que não deveria corresponder a realidade da época e muito menos a atual. Saber ler sempre foi e talvez sempre será uma importante ferramenta engradecimento pessoal, relegar a mulher ao analfabetismo e atividades domésticas pela simples condição de ser mulher é um opinião no minimo desrespeitosa. A visão sobre a mulher e seu papel era completamente diferente e deturpada. Afinal, aceitar que Deus restringiu a vocação intelectual apenas aos homens é uma afronta a essência da fé católica, e contradiz a realidade onde mulheres como Santa Tereza D'Avila já havia brilhado e marcado o mundo com sua vocação. 

No geral, a respeito do papel da família como um todo, o autor me parece desinformado, não possuindo conhecimentos relevantes sobre o problema que tenta resolver, o que não seria surpresa se consideramos que ele era um frade. 

Superados esses pontos, a obra se revela excelente. Com uma proposta ousada de contradizer a ideia de intelectual mais comum, ele desmascara os vícios, o ego, os erros e a vaidade por trás daqueles que se dizem grandes pensadores. Ele traz a tona um caminho de intelectualismo voltado para a vida eterna, centrado na busca pela "verdade", no crescimento do ser em comunhão com a verdade universal e não apenas com seus propósitos. Essa visão, talvez amplamente difundida nos meios religiosos, sempre causa espanto para nós que não temos contato com o transcendental com tanta "frequência". 

Um religioso é religioso a todo momento, como um intelectual o deve ser a todo momento. Mas nós, leigos, somos: trabalhadores, filhos, irmãos, pai, mãe, vizinho, voluntário, cliente, usuário, amigo, eleitor... alternando e tentando conciliar as implicações de nosso papel na sociedade e no mundo. Para mim, a proposta de Sertillanges é uma vida intelectual, agindo através do corpo e Espírito, capaz de nos revelar a Verdade como o Fio de Ariadne de nossas vidas, orientando-nos em todas as nossas identidades e nos conduzindo em direção a vida eterna.